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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Travessia da Serra do Papagaio - Dia 3, por Fabio Fliess




Letícia na "borda infinita" da Cachoeira da Juju
Foto: Fabio Fliess


Eu e Letícia acordamos bem cedo, pouco depois das 6h.  Como sabíamos que o dia de hoje seria mais “tranquilo”, fazíamos tudo sem pressa. Fizemos sopa e chá para reforçar o café, já que não havíamos jantado na noite anterior.  Depois que todos prepararam seu desjejum, começamos calmamente a desmontar o acampamento.  Assim que terminei de arrumar a mochila, ainda sobrou um tempo para tirar várias fotos da Cachoeira da Juju, usando a “borda infinita” como moldura.
Um pouco antes das 9h, começamos a procurar um ponto tranquilo para atravessar o rio.  Aqueles que estavam com botas de cano alto e com o Gore-Tex em dia usufruíram o luxo de atravessar o rio sem a trabalheira do “tira bota-molha pé-seca pé-põe bota”. Eu não estava nesse grupo!
Do outro lado do rio, a trilha já começava com uma subida “daquelas”, castigando as pernas.  Para compensar, o visual do rio à esquerda e do vale à direita era impressionante.  Logo o aclive diminuiu e aproveitamos os diversos mirantes para tirar muitas fotos.

Último ponto de água do terceiro dia.
Foto: Gustavo Machado

Após cerca de 1h15 de caminhada, com a trilha alternando entre subidas fortes e trechos planos, avistamos uma casa no vale a esquerda, junto a um riacho. Descemos até a casa, e enchemos nossos cantis, pois não teríamos outra oportunidade durante esse dia. Aproveitamos a pausa e fizemos um lanche reforçado, pois a partir desse ponto teríamos inúmeras subidas para encarar. 


Adriano Fiorini "finalizando" mais uma das intermináveis subidas
Foto: Gustavo Machado


Retomamos a caminhada por volta das 11h, já enfrentando uma subida que parecia interminável. Com o sol forte, a sensação de deja-vu era forte. Uma subida, um trecho plano, outra subida, etc. Sempre igual... Durante uma dessas subidas, avistamos finalmente o Morro do Chapéu, onde iríamos acampar.
Encaramos mais umas 2h de subidas e descidas, que cansavam demais. Um pouco antes das 14h chegamos a um bonito mirante, onde a trilha desce à direita, entrando em uma pequena mata. Quando saímos da mata, encaramos de frente o Morro do Chapéu. Andamos mais uns 10 minutos num grande campo aberto de capim ralo e começamos a procurar um local para montar as barracas. Encontramos um local relativamente tranquilo e preparamos tudo.

 A turma chegando ao acampamento na base do Morro do Chapéu
Foto: Fabio Fliess

Como era cedo e o sol ainda estava alto, ficamos um bom tempo conversando. Por volta das 16h, resolvemos fazer um “almo-janta”.  Gustavo e Fiorini resolveram encarar a subida do Chapéu, chegando ao cume principal em menos de 20 minutos.
Por volta das 17h15 subimos uma pequena encosta para apreciar o por do sol.  Poucos minutos depois, Gustavo e Fiorini se juntaram a gente. Infelizmente, uma grande nuvem acabou com a brincadeira e frio chegou com força.
Por volta das 18h já estávamos confinados na barraca e em pouco tempo, apagamos.
 
 Ao lado do nosso acampamento
Foto: Gustavo Machado

 Entardecer no Morro do Chapéu
Foto: Fabio Fliess

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Travessia da Serra do Papagaio - Dia 2, por Fabio Fliess



Letícia e Gustavo curtindo o nascer do sol.
Foto: Fabio Fliess

 A noite foi bem fria (segundo o termômetro que o Garcia levou, a mínima foi de 5 graus, mas a sensação térmica devia bater no negativo), mas acordamos bem cedo para ver o sol nascer. Ficamos cerca de meia hora curtindo o espetáculo, tirando fotos e conversando.
Por volta das 6h, já começamos a preparar o café da manhã, arrumar os equipamentos e preparar as mochilas.  Existia uma preocupação no ar, pois sabíamos que o segundo dia seria o mais puxado de toda a travessia, e no dia anterior não havíamos conseguido chegar ao ponto desejado para acampar. Ou seja, o mais difícil ainda poderia ficar pior.  Por conta disso, nem consideramos uma possível subida ao cume do Morro da Bandeira e às 8h retomamos nossa caminhada.
Andamos cerca de 800m praticamente no plano e nos deparamos com um curral de pedras que logo identificamos como o Retiro dos Pedros.  Isso acabou nos dando um ânimo a mais, pois o “prejuízo” do dia anterior foi pequeno.  Andamos mais 200m e atravessamos um riacho onde pegamos um pouco de água (não confiamos muito na qualidade da água). Nesse dia teríamos uma fartura de pontos de água e isso não nos preocupava (pelo menos não nesse momento).
Logo a trilha entra na mata fechada e segue assim durante um bom tempo, contornando o Pico da Canjica pela esquerda. Após algumas descidas, a trilha fica plana e sai em um bonito campo aberto. Nesse ponto (e em vários outros), a navegação é mais instintiva e é preciso prestar bastante atenção na calha da trilha, que muitas vezes fica fechada pela vegetação baixa.

Detalhe do totem do Santo Daime.
Foto: Fabio Fliess

Chegamos num bonito mirante onde avistamos uma enorme cachoeira, que chegamos a pensar que fosse a Cachoeira da Juju, nosso objetivo do dia. Logo a trilha começa a descer para a esquerda, e entramos novamente na mata, com fortes descidas.  Quando saímos da floresta, entramos em um enorme campo aberto, onde está fincado um “totem” do Santo Daime, a direita da trilha. Deixamos as mochilas e fomos fotografar o tal totem. Não achei nada demais, e voltei com os outros para a trilha principal (na verdade, uma estrada) onde fizemos um lanche rápido.
Um pouco mais a frente, essa estrada bifurca. Seguindo a esquerda, existe um bom ponto para coletar água e existe a possibilidade de abortar a trilha seguindo até o Vale do Matutu. A continuação da travessia é pela direita, cruzando uma bonita mata. Um pouco a frente, cruzamos novamente um riacho, andamos um pouco mais e a trilha vira a direita uns 90˚. 

A trilha vai subindo e descendo morros durante um bom trecho.
Foto: Fabio Fliess

A partir desse ponto, vamos subindo e descendo vários morros, debaixo de um sol forte. O visual é que anima e compensa. Depois da descida do terceiro ou quarto morro (nem me recordo mais), encontramos um local plano e com sombra para fazermos uma refeição reforçada.  Até ali, já tínhamos caminhado cerca de 9km, metade do estimado para o dia.  Ficamos quase meia hora comendo, conversando e descansando.
Retomamos a caminhada, e pouco depois chegamos num bonito mirante (apesar da falta de água, um bonito local para acampamento). A trilha começa a descer em direção ao fundo do vale. Ali, passamos por dois pontos de água, sendo o primeiro dentro de uma pequena floresta. Após (mais) uma subida, quando chegamos ao topo avistamos um grande rio que teríamos que cruzar, que possui uma enorme cachoeira e um belo poço.
Descemos até a calha do rio e começamos a procurar um ponto para atravessá-lo. Embora os relatos mencionem que é mais fácil atravessar um pouco mais acima, optamos por fazê-lo bem perto da cachoeira.  Embora a correnteza fosse forte, o volume de água não era tão grande.  Preparamos tudo e pouco tempo depois, estávamos todos na outra margem, em segurança!

A bonita cachoeira avistada depois de cruzarmos o rio.
Foto: Fabio Fliess

A alegria de atravessar o rio em segurança logo foi ofuscada pelas fortes subidas que iríamos encarar pela frente.  Passamos próximos a um casebre (uma referência da trilha), continuando a subir o forte aclive e em pouco tempo estávamos caminhando numa bonita crista. Andando um pouco mais, a trilha chega ao final de uma estrada que desce para a esquerda e leva até a localidade de Alagoa (outro ponto para abandonar a travessia). Na direção oposta, essa estrada vira uma trilha bastante erodida em direção ao fundo do vale. Seguimos por essa trilha e já estava bem tarde quando chegamos num riacho, e na dúvida, resolvemos encher os cantis.  Não tínhamos certeza se conseguiríamos chegar a Cachoeira da Juju com luz, e já pensávamos em outras opções para pernoitar.
Após o riacho, temos mais um trecho de subida forte, que subi resignado. Chegando ao topo dessa elevação, a trilha fica mais plana e a caminhada rende um pouco mais. Cerca de 10 minutos depois chegamos num mirante onde finalmente avistamos o destino do dia.  Visualizamos os grandes poços da cachoeira e sabíamos que faltava pouco. 

Avistando as corredeiras da Cachoeira da Juju, no final do dia.
Foto: Gustavo Machado

Um pouco mais animados com a proximidade do acampamento, começamos a forte descida até a cachoeira. Inicialmente em um trecho bastante erodido, com muitas pedras soltas, até chegar numa porteira. A partir dali, a navegação foi praticamente visual, e apenas em alguns pontos conseguíamos enxergar o capim amassado indicando a trilha.  Após uma forte descida, bastante cansativa e perigosa (a Lidiane chegou a torcer levemente o pé) cruzamos um pequeno pasto e finalmente chegamos à área de acampamento, ao lado da cachoeira. Eram 18h e praticamente não tínhamos mais luz natural.
Usando as lanternas, montamos nossas barracas. Os mais corajosos ainda encararam um banho completo na cachoeira!
Por conta das aranhas e escorpiões que apareceram no nosso acampamento, a Letícia perdeu a fome e desistiu de cozinhar.  Não me incomodei com isso, pois na verdade estava sem fome.  O restante da turma preparou suas refeições. Eu apenas filei um pouco de vinho tinto “Travessia” (nome muito apropriado), levado pelo Fiorini.  
Foram praticamente 10h de caminhada pesada! Antes das 20h já estavam todos dormindo. 

A beleza da Serra da Mantiqueira nos levava sempre a frente.
Foto: Fabio Fliess

Marcelo Garcia na aproximação da Cachoeira da Juju, com o sol já se pondo.
Foto: Gustavo Machado

Por do sol, visto do último morro antes da Juju.
Foto: Fábio Fliess

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Travessia da Serra do Papagaio - Dia 1, por Fabio Fliess



 Nascer do sol visto da estrada, a caminho de Aiuruoca
Foto: Fabio Fliess

Animados com a experiência que tivemos em Aiuruoca no Carnaval deste ano (ver posts anteriores no blog), assim que retornamos a Petrópolis começamos a planejar essa travessia.  Ela era um projeto antigo meu, da Letícia e do Marcelo Garcia, que havíamos tentado fazer essa travessia em setembro do ano passado, mas tivemos que adiar.
Além de nós três, convidamos os velhos parceiros de trilha Rafael Guerra e Lidiane Araújo. O casal Gustavo e Fabiolla também foi “escalado”, mas na última hora a Fabiolla teve um problema e não pode ir.  Em cima da hora, convidamos o amigo Adriano Fiorini, que estava há tempos querendo fazer essa trilha. Ele topou na hora!
Por se tratar de uma travessia, a parte mais chata da logística é arrumar transporte para nos levar ao início da trilha (no Sítio do Saulo, localizado no Vale do Matutu) e nos resgatar em Vargem, um bairro rural de Baependi.  Pesquisando na internet, encontrei diversas menções ao Marcus, proprietário da Pousada Ajuru e que possui uma kombi que ele usa como táxi. Ele já estava habituado a fazer esse trabalho.  No final de março fiz contato com ele por telefone, e já deixamos combinado o serviço de translado.
As 3h15 da manhã de quinta-feira (dia 01/05), eu, Letícia, Rafael, Lidiane e Gustavo estávamos prontos esperando pelo Garcia e Fiorini em Itaipava.  Tão logo eles chegaram, distribuímos todos em dois carros e seguimos direto até Lima Duarte, onde reabastecemos.  De lá, tocamos sem parar até Aiuruoca, aonde chegamos as 7h da manhã. Fomos até a Pousada Ajuru, localizada na entrada da cidade, onde procuramos pelo Marcus, que não estava. A funcionária da pousada se encarregou de contatá-lo.
Aproveitamos o tempo que ele levaria para chegar à pousada para tomarmos um rápido café numa padaria da cidade. Retornamos e encontramos com o Marcus. Após as apresentações de praxe e um rápido bate-papo, arrumamos as cargueiras na kombi e tocamos para o Vale do Matutu. As 8h30 já estávamos nos arrumando para iniciar a trilha. Despedimos-nos do Marcus deixando nosso resgate combinado para domingo ao meio dia.

 Pico do Papagaio visto da entrada do Sítio do Saulo
Foto: Fabio Fliess

As 8h40 começamos uma longa subida até o sítio do Sr. Batista. Chegamos, batemos palmas, mas não havia ninguém em casa.  Ao lado da residência existe uma bica onde pudemos abastecer nossos cantis.  A trilha segue em terreno aberto em direção ao enorme paredão do Pico do Papagaio. Essa aproximação levou cerca de 2h, pois subimos com bastante tranquilidade. Bem próximo do paredão, entramos numa floresta até praticamente tocarmos na pedra.  Andamos mais uns 15 minutos e encontramos um riacho, o último ponto de água confiável antes de chegarmos ao acampamento do dia, no Retiro dos Pedros.  Todos encheram seus cantis até o limite, o que tornou a caminhada um pouco mais difícil, por conta do peso adicional.

A turma admirando a Serra da Mantiqueira
Foto: Fabio Fliess

Com mais alguns minutos de caminhada, passamos por lindos campos abertos, onde em alguns pontos pudemos avistar o Vale do Matutu e a Cachoeira do Fundo. Ali já estávamos próximos da bifurcação que divide a continuidade da travessia (à esquerda) e a trilha até o cume do Pico do Papagaio. Chegamos um pouco antes das 13h nessa bifurcação, onde fizemos uma parada. Garcia, Fiorini e Gustavo decidiram por um bate-e-volta até o cume do Papagaio e o restante da turma ficou descansando.

Visual da Mantiqueira, no cume do Pico do Papagaio
Foto: Gustavo Machado

Eles regressaram as 14h45 e pelo adiantado da hora, juntamos imediatamente as mochilas e começamos a caminhar em direção ao nosso acampamento.  Sabíamos que teríamos no mínimo duas horas e meia de caminhada até o Retiro dos Pedros e o ideal seria chegarmos lá ainda com a luz do dia.
Em questão de minutos, já estávamos passando ao lado da Pedra Quadrada, que marca o ponto de ligação de outra trilha que leva ao Pico do Papagaio, e que usamos no Carnaval.  
Seguimos subindo até chegarmos praticamente ao lado do Santuário (que até então chamávamos de Tamanduá, em função das referências que obtivemos na internet), uma bonita elevação com grandes pedras espalhadas no cume.  

Subindo até o Santuário
Foto: Fabio Fliess

Continuando a caminhada, atravessamos um muro de pedras - bem antigo. A partir desse ponto a caminhada é praticamente toda na crista da serra, subindo e descendo morros e lages de pedra, e já avistando nosso “objetivo” do dia, o Morro da Bandeira (ponto culminante de toda a travessia com 2357m de altitude). 
Sabíamos que ali perto, aos pés dessa montanha, ficava o Retiro dos Pedros e um ponto de água. A tarde avançava depressa, o frio aumentava e todos estavam bem cansados pela curta noite de sono na noite anterior e pela viagem.  Por volta das 17h15, bem próximos do Bandeira, encontramos um bonito vale descampado com algumas “ilhas” de vegetação. Fizemos um rápido referendo, e acabamos optando por acampar ali mesmo.  Montamos as barracas, nos agasalhamos, preparamos uma refeição quente e ainda tivemos o privilégio de assistir um lindo por do sol. 
Todos foram dormir bem cedo (por volta das 19h), pois o frio e o vento estavam fortes demais.

 A turma caminhando em direção ao Morro da Bandeira
Foto: Fabio Fliess

 Nosso acampamento, próximo ao Retiro dos Pedros
Foto: Fabio Fliess

 Por do sol 
Foto: Fabio Fliess

domingo, 1 de janeiro de 2012

Torres del Paine, por Rafael Guerra

Pessoal, segue o relato do nosso trekking (ou tentativa de trekking) em TDP em dezembro. Como estou escrevendo em um computador público nao houve tempo para a inclusao de fotos e vídeos. Isso vai ficar pra depois assim como a correçao da acentuaçao...

Partimos de Puerto Natales para o Parque Torres del Paine no dia 28 de dezembro e chegamos na entrada do parque, Guardaria Laguna Amarga às 16h25, após quase 2 horas de ônibus. Assim que chegamos fomos avisados por um guarda que o circuito estav fechado devido a um incêndio e que poderíamos seguir até o refúgio Grey. Resolvemos iniciar assim mesmo o trekking, acreditando que em 2 ou 3 dias a passagem estaria liberada e que o pior que poderia acontecer seria termos que voltar tudo caso o incêndio continuasse.


Começamos a caminhada por volta das 17 horas e chegamos no camping Serón mais ou menos às 23 horas, junto com o pôr do Sol. O esforço desse dia nos deixou bem cansados e com a certeza de que nao deveríamos ter começado a caminhar tao tarde.

No dia 29 acordamos tarde e fizemos questao de fazermos tudo bem devagar, sem pressa. Tomamos um café da manha reforçado e saímos às 13 horas rumo ao refúgio Dickson. Após 2 horas e meia de caminhada, depois do lago Paine; onde encaramos um vento muito forte; encontramos um pequeno bosque e paramos ali por 50 minutos para o almoço. Umas 3 horas depois, paramos novamente para tomarmos café. Foi muito legal e diferente essa dinâmica de parar pouco e quando parar, em vez de lanchar barrinhas de cereais, fazer um almoço leve.

Chegamos no refúgio Dickson umas 21 horas sob um vento forte e fomos informados que o acampamento Los Perros estava fechado mas que poderíamos fazer um bate-e-volta sem problemas. Como passamos a ter muito tempo disponível, que nao poderíamos fazer o circuito completo, resolvemos tirar o dia seguinte de folga e deixar o bate-e-volta em Los Perros para o dia 31. Nós passaríamos o reveillon no Refúgio Dickson e voltaríamos para Serón no primeiro dia de 2012.

Decidimos montar as barracas bem próximas uma das outras de modo que elas se protegessem mutuamente contra o vento. A minha barraca foi montada por último com a ajuda do Fábio e da Letícia. Quando terminamos, deu tempo apenas de eu colocar a minha mochila dentro da barraca e uma rajada de vento mais forte simplesmente a achatou contra o chao, quebrando a estrutura de alumínio e rasgando o cobre-teto!
Acabei conseguindo acomodaçao no refúgio por $ 10.000 Pesos. Havia também barracas para alugar por $ 7.000 Pesos mas achei que a diferença de preço nao fazia isso valer a pena. Acabou sendo uma noite agradável... Fábio, Letícia Gilmar e Alessandra foram para o refúgio e jantamos uns sanduíches de carne bem legais com cerveja Austral. Eu bebi umas 4 latinhas de cerveja... gostei muito! Depois que a turma voltou para as barracas eu ainda fiquei bebendo no refùgio até 1 hora da manha na companhia de um grupo de trekkers chilenos.

Quando a gente olhava para as montanhas na direçao das Torres, víamos as núvens coloridas pelas chamas que consumiam a vegetaçao do parque. Um espetáculo muito triste.


Na manha seguinte, dia 30, acordei disposto a nao fazer nada além de curtir a folga da caminhada. Afinal, havíamos andado mais de 36km e as mochilas estavam bem pesadas!

Quando saí do refúgio para tomar o café da manha com os amigos que estavam acampados, fui abordado por um guarda que me disse que o parque estava fechado; que estava sendo evacuado e que deveríamos partir também. Segundo ele, os acampamentos Los Perros e Serón estavam fechados e o Dickson seria fechado em breve também.
Nesse momento a minha maior preocupaçao era arrumar acomodaçao para dormir quando chegássemos em Serón, que eu nao tinha barraca e também náo poderia contar com a possibilidade de alugar uma barraca do acampamento! As barracas que os meus amigos estavam levando eram para uma pessoa, com conforto. Enfiar 3 pessoas numa barraca dessas seria um problema mas parecia a única opçao.
Comida também era um problema, que nos preparamos para comprar os alimentos nos refúgios e campings por onde passaríamos. Conosco, levávamos apenas uma quantidade pequena para emergências.

Arrumamos tudo e saímos de Dickson às 13h15. Naquela altura, com o corpo mais acostumado ao exercício, a caminhada parecia mais fácil para todos. A ao ser na parte da trilha próxima ao mirador do Lago Paine. O vento, que estava forte no dia anterior, nesse dia parecia estar com o dobro da força. A Alessandra estava caminhando bem a frente do grupo, depois seguíamos eu e o Gilmar e bem mais atrás, o Fábio e a Letícia. O vento era tao forte que eu conseguia seguir muito devagar, de costas para uma pirambeira de 150 metros que terminava no lago e forçando os bastoes de caminhada contra um paredao de rocha que se estendia por boa parte do lado direito da trilha. Em um certo momento resolvi arriscar uma caminhada mais rápida de frente para a trilha e o vento me empurrou contra a rocha me fazendo subir uns 2 metros no paredao. Quase pirei tentando descer dali antes que o vento desse uma trégua e eu desabasse. Parecia um skatista em um halfpipe. Depois o Fábio me contou que passou pela mesma situaçao naquele ponto...
Continuei caminhando com muita dificuldade. O barulho do vento era muito alto e a força dele fazia a mochila zunir ao mesmo tempo que eu era praticamente açoitado pelas fivelas da mochila. Posso dizer que "entrei na porrada"!
Em um dado momento passei pelo Gilmar caído no chao. Ele havia se jogado atrás de um arbusto grande para tentar nao ser lançado montanha abaixo. Seguimos juntos, caminhando um pouco mais e finalmente conseguimos sair daquele inferno. Esperamos uns 15 minutos pelo Fábio e pela Letícia. Preocupados, resolvemos voltar para socorrê-los caso fosse necessário. Nao conseguimos! Em um determinado ponto de uma curva parecia que havia uma parede de vento que nos impedia de seguir.
Ficamos aliviados quando pouco depois os dois apareceram e saíram do vento.

Chegamos ao camping Serón às 20h45 e era possível avistar a fumaça do incêndio ao longe.

Achei estranho haver gente dentro da administraçao do camping, que ele deveria estar fechado. Quando entrei , encontrei uma família de 12 montanhistas chilenos com os quais eu havia feito amizade no dia anterior. Eles estavam fazendo o trekking sem barraca, que o parque quando nao oferece refúgio, dispoem de barracas para alugar. Com o camping fechado, eles ficaram "sem teto", na mesma situaçao que eu, e forçaram uma das portas em busca de abrigo. Sabendo da minha situaçao, eles pegaram uma das barracas do parque e me emprestaram para que eu passasse aquela noite.
No dia seguinte eu devolvi a barraca arrumada e limpa. Os chilenos haviam dado uma boa faxina no local e arrumado tudo.
Partimos todos juntos e umas 13h estávamos na Laguna Amarga espeando pelo ônibus que nos levaria à Puerto Natales.

Apesar de nao termos conseguido fazer o circuito completo mais o "W", como havíamos planejado, ficamos bem e posso dizer que valeu a pena. A única e grande tristeza ficou por conta de ver tamanho patrimônio natural sendo queimado pela irresponsabilidade de um idiota que resolveu queimar o seu papel higiênico para nao ter que carregá-lo!

O que queremos agora é voltar aqui depois de algum tempo e encontrar tudo recuperado.

Atualizaçoes:
03/Jan - 09h56 - Hoje a CONAF (o "Ibama" do Chile) fará o sobrevoo das áreas afetadas pelo incêndio e decidirá sobre a reabertura parcial do parque.
Já estamos preparando o nosso retorno para tentarmos fazer ao menos uma parte do W nos próximos dias.
Enquanto isso, hoje, daremos uma pedalada até o sítio arqueológico Cueva del Milodon. Distante cerca de 30km de Puerto Natales.