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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Fotos - Escalada no Nevado Ishinca, por Rafael Guerra

Oi pessoal,

Como dizem que as imagens falam mais do que palavras, preparei esta postagem com mais fotos da escalada no Nevado Ishinca. As fotos estão organizadas de modo a (tentar) contar a história de forma cronológica.

Todas as fotos sem créditos são do autor.

Espero que gostem!


Video feito logo após a chegada no cume.


Nossa equipe reunida com Scheler em Cochapampa, no início da caminhada para o campo base Ishinca. Foto de Alberto Hung.


A bonita trilha na floresta de quenuais, na entrada da Quebrada Ishinca.
Foto de Gilmar Oliveira.



Entrada do campo base Ishinca. Foto de Fábio Fliess.


Cume do Nevado Ishinca (5530m), às 7h30m. Pouco antes da parada para a instalação dos crampons nas botas.


Parte da trilha que deixamos para trás durante a madrugada. Ao fundo, à esquerda, o cume do Urus (5.495m).


Greta no glaciar do Ishinca. Ao fundo, o Tocllaraju (6.032m).


No cume do Ishinca, às 10h47 da manhã. Após 7 horas de ralação. Foto de Alberto Hung.


Lagunas na base da face sul do Ishinca, na Quebrada Cojup.


Descida do cume. Detalhe para a pequena greta próxima ao cume.
Foto de Alberto Hung.


Comemoração pelo sucesso da escalada, com direito a brinde com pisco sauer.
Foto de Fábio Fliess.


Nosso acampamento, com o Tocllaraju ao fundo.

Pôr do Sol na Quebrada Ishinca.


A equipe contemplando o Urus durante a escalada de Alberto Hung e Gilmar Oliveira.


Após deixarmos o campo base, no retorno à Cochapampa, para pegar o nosso transporte para Huaraz.


Eu e meu amigo e companheiro de caminhadas, Fábio Fliess.

A melhor equipe que se pode desejar: Fábio Fliess, Evandro, Alessandra Hambrick e Gilmar Oliveira.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Escalada do Nevado Ishinca, por Rafael Guerra

A turma reunida na partida para a caminhada até o campo base.

Em julho deste ano, na região da Cordillera Blanca, próxima à Huaraz, Peru, após 5 caminhadas de 1 dia e de passar 4 dias no incrível Trekking Santa Cruz – Llanganuco, eu já estava mais do que satisfeito pelo sucesso alcançado nesta temporada. Principalmente pelo peso de, no ano anterior, ter sido forçado a abandonar de forma dramática o trekking de Huayhuash no segundo dia por conta de uma infecção e de dificuldades na aclimatação. Mas no objetivo deste ano do nosso grupo, formado por mim, Fábio Fliess, Gilmar Oliveira, Alessandra Hambrick e Evandro Costa, também estavam incluídas as escaladas dos nevados Ishinca e Urus.

O nevado Ishinca (5530m), com grau de dificuldade considerado moderado, está situado em uma Quebrada que leva o seu nome, no Parque Nacional Huascarán, a cerca de 2 horas de carro da cidade de Huaraz. O campo base fica a 4400m de altitude e para alcançá-lo é necessário percorrer uma fácil e absolutamente linda trilha de 15km. A área do campo base é muito ampla e é cortada por um córrego de água limpa, formada pelo degelo dos glaciares dos nevados Tocllaraju e Ishinca, o que garante um ótimo suprimento de água; há sempre por ali os que eu chamaria de “camelôs de altitude”, camponeses que diariamente montam suas barracas para a venda de artigos de primeira necessidade como refrigerantes e cerveja… um luxo em uma região tão inóspita! Por fim, quebrando o clima da paisagem, há o controverso Abrigo Ishinca. O Abrigo Ishinca é um alojamento com ótima infraestrutura. Oferece banho quente e eletricidade solar; cama, café da manhã e jantar por US$ 35 e cama, café da manhã, almoço e jantar por US$ 49. É uma boa opção para quem viaja solo e deseja reduzir o peso da mochila.

Abrigo e zona de aclimatação Ishinca.

Esse campo serve de base para as escaladas do Urus Leste (5420m - Moderada), Ishinca (5530m - Moderada); Tocllaraju (6274m - Difícil) e o Ranrapalca (6162m - Difícil). Vale mencionar que as duas últimas montanhas citadas normalmente necessitam de um acampamento avançado e mais de um dia de escalada para que o cume seja alcançado.

No dia 18 de julho, às 11 horas da manhã, começamos em Cochapampa a caminhada para o campo base. A vista daquele ponto é impressionante: você olha para a frente e vê no centro da paisagem a entrada da quebrada com suas paredes colossais que mais lembram um grande canyon; à esquerda, o Nevado Copa (6188m), que se destaca por seu extenso glaciar e à direita o Vallunaraju (5686m) e o Oshapalca (5881m).

Da esquerda para a direita: Ishinca, Ranrapalca e Oshapalca vistos do cume do Urus.

Caminhamos em um ritmo forte por 2km até começarmos a entrar na Quebrada Ishinca, quando então a trilha adentra por uma floresta de Quenuais. Bem mais a frente fizemos uma parada no posto de controle do Parque para nos registrarmos e aproveitamos para um rápido lanche. Nesse posto de controle é necessário apresentar o ingresso do parque ou comprar um por S/.65 Soles, caso você ainda não tenha. Como esse ingresso é válido por 1 mês, uma boa dica é guardá-lo bem, de preferência junto ao passaporte.

Seguimos percorrendo a trilha pela floresta, sempre margeando um rio, que é o mesmo que passa pelo acampamento base, mas que ali já está com um volume de água maior devido às contribuições dos glaciares do Oshapalca e do Vallunaraju, até sairmos em um campo. Nesse momento eu reparei que a turma havia ficado para trás. Começou a nevar bem fraquinho, a temperatura caiu e eu lembrei que a minha parka havia ficado na parte da bagagem que estava sendo levada pelos burrinhos. Continuei caminhando, cuidando para não aumentar a minha distância para o resto da turma mas quando vi que eles estavam vestindo os seus abrigos, por conhecer os detalhes da trilha e por saber que eles estariam bem, resolvi dar uma acelerada para procurar uma proteção caso a situação se agravasse. A trilha começou a subir, a nevasca a aumentar e a temperatura a despencar mas naquela altura eu já estava apenas a 1 km do acampamento.

Quando enfim cheguei na área do acampamento o meu chapéu estava encharcado, mas a jaqueta, hidrorepelente, aguentou a barra numa boa. A notícia ruim é que não havia acampamento montado porque eu havia chegado antes dos burrinhos com a nossa carga. Consegui abrigo com 3 senhores peruanos que estavam por ali vendendo coisas para os montanhistas acampados. Fiquei ali por uns 30 minutos, debaixo daquele abrigo improvisado com pedras, galhos e lona, “confortavelmente” sentado em um banco-pedra, que me foi gentilmente oferecido, bebendo cusquenã e sendo sabatinado sobre o desastroso desempenho da nossa seleção de futebol na Copa do Mundo até que todos chegaram. Acho que eram umas 16h quando conseguimos entrar nas nossas barracas enlameadas. Era hora de descansar para a grande aventura que se aproximava.

Dormi por algumas horas e quando acordei para o jantar a neve havia parado de cair mas o céu estava completamente nublado, o que colocou em xeque a escalada do dia seguinte. Combinamos de partir do acampamento às 3h da madrugada caso o tempo estivesse aberto e fui dormir tranquilo confiando que isso aconteceria. Algumas horas depois, acordamos sob um céu estrelado. Tomamos um gostoso café da manhã preparado pelo cozinheiro e porteador Frael; nos equipamos e partimos atrasados às 3h40, praticamente correndo com as botas duplas para alcançar o nosso guia Alberto Hung, que ia "voando baixo" na trilha para tentar compensar o nosso atraso. Como sempre, eu fui o último a deixar o acampamento. Segui bem atrás do grupo em um ritmo muito mais lento, tanto pela minha obsessão em administrar energia quanto porque sentia dificuldades em caminhar com as botas duplas. Eu escolhi um modelo da Asolo que pesa 1,1 kg cada pé. Isso somado a rigidez do calçado, a cada passada eu imaginava que rolaria trilha abaixo. Estava satisfeito pelos meus amigos estarem seguindo bem e conformado para o caso de eu ter que desistir do cume.

Há uns 300 metros do nosso acampamento, encontrei o Gilmar, a Alessandra, o Frael e o Alberto conversando preocupadamente.

A temperatura era de -10ºC e a Alessandra, que estava com muito frio, resolveu retornar dali mesmo para o acampamento, sendo seguida pelo Gilmar, que é seu marido, e pelo Frael.

Quando continuamos a caminhada eu já estava praticamente adaptado às botas e começava a caminhar com mais desenvoltura e consegui manter um ritmo suficiente para acompanhar o Fábio, o Evandro e o Alberto. Seguimos subindo por mais 3 horas e paramos para um breve descanso sob o Sol que já começava a nos aquecer. Nesse momento o Evandro comunicou que não faria o cume porque estava preocupado em não ter forças para o retorno. O Fábio resolveu ficar com ele porque estava sentindo um sono absurdo e nos contou que estava enfrentando problemas para dormir. Após avaliarmos a situação, considerando que os dois estavam bem, relativamente protegidos do vento, sob o calor do Sol e com bastante comida e água, Alberto e eu decidimos seguir em frente e combinamos que eles nos esperariam naquele ponto. Caminhamos por mais uma hora até atingirmos o início do glaciar aonde nos encordamos e calçamos os crampons. Eram aproximadamente 8 horas da manhã quando começamos a atravessar o glaciar um pouco abaixo do colo entre o Ishinca e o Ranrapalca, local usado como acampamento avançado para a escalada do Ranrapalca. A progressão era lenta por causa da altitude e do peso de quase 1 kg e meio de cada bota com o crampon instalado. Seguimos lentamente, evitando as gretas e contemplando a paisagem. A neve que caíra sobre o glaciar estava marcada com extensos rastros de raposas que passaram por ali durante a madrugada. A parte mais complicada foi no início da subida da pirâmide do cume, bem mais íngreme do que o resto do glaciar. Naquele ponto a adrenalina de começar a acreditar que o sonho ia se realizar foi o que continuava me impulsionando. Alguns metros antes do cume foi necessário fazer uma escalada mais técnica inclusive pra superar uma pequena greta na parede do cume, que acabou sendo usada como degrau.

No cume do Ishinca. Em segundo plano, o Ranrapalca.

Quando enfim cheguei ao cume, às 10h40min, meu coração parecia querer sair pela boca de tanta adrenalina. O meu primeiro nevado me trouxe uma felicidade indescritível.

Eu estava frente-a-frente com as montanhas mais lindas do lado sul do Parque Nacional Huascarán. Tocllaraju, os dois cumes do Urus, Copa, Churup, as 3 lindas lagunas azuis na base da face norte do Ishinca, já na Quebrada Cojup. Montanhas que até então eu só havia contemplado como turista, a partir do terraço do Hostal em que nós estávamos hospedados. Posso dizer que aquele “terraço” onde eu estava era muito mais emocionante.

Tiramos várias fotos, filmamos e rapidamente iniciamos a descida devido a umas nuvens negras que se aproximavam rapidamente.

Visual a partir do cume do Ishinca.

Chegamos de volta ao campo base Ishinca às 14h, após 10 horas e vinte minutos da mais pura ralação! Bem a tempo do almoço com os meus amigos!!!

Que venham as próximas escaladas!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Livro Classic Climbs of the Cordillera Blanca

Este ano, em minha última viagem às montanhas do Peru, entre uma caminhada e outra eu tive a idéia de procurar um guia de escalada das montanhas da região da Cordillera Blanca. Não foi necessário procurar muito porque logo encontrei o Classic Climbs of the Cordillera Blanca e fiquei muito impressionado.
Nas 208 páginas do livro são detalhadas, em inglês, 50 vias de escalada incluindo informações para a aproximação às montanhas; sobre as conquistas da vias; desnível; graduação; tempo e equipamentos necessários para as escaladas. Além disso, o livro é recheado com 185 lindas fotos coloridas, a maior parte tirada pelo próprio autor do livro, Brad Johnson, que é também fotógrafo profissional e tem fotos publicadas em revistas como a Outside e Climbing, entre outras. Um dos recursos de que mais gostei foram os 12 mapas 3d das Quebradas, onde se pode ver os vales e suas montanhas como em uma navegação pelo Google Earth. Sem dúvida isso facilita muito o entendimento sobre o relevo da região. O livro, que me custou SL/. 120 Nuevos Soles (cerca de US$ 40 dólares), dedica cerca de 20 páginas com dicas para a viagem, como idioma, moeda, transporte para Huaraz e para as montanhas, restaurantes e hotéis em Huaraz, contratação de guias, porteadores e infraestrutura de expedição.
Por coincidência, conversando sobre o livro com o dono do Hostal Olaza´s, no qual eu fiquei hospedado, descobri que o autor também estava na cidade e hospedado no mesmo hostal. Claro que eu não perderia a oportunidade de conseguir algumas dicas sobre as escaladas da região e acabamos nos conhecendo e batendo um longo papo sobre a Cordillera Blanca e sobre a sua carreira de montanhista. Brad Johnson nasceu na mítica cidade de Boulder, no Colorado. Nesse ambiente seria quase impossível ele não ter contato com o montanhismo... algo talvez como ser nascido no Brasil e nunca ter participado de uma “pelada”. Ele começou cedo e aos 14 anos já havia escalado o Kilimanjaro, na África. Já fez o cume do Denali, no Alaska, e do Cho Oyu, no Tibet, entre outros. Embora não tenha conseguido chegar ao cume, encarou também o Makalu e o K2. Ele escala na Cordillera Blanca há quase 30 anos. Enfim, um currículo e tanto. Ele ganha a vida com a sua empresa de guias Peaks & Places, organizando expedições para a Cordillera Blanca e outras regiões do Peru. Com uma “quilometragem” dessas, imagino que o serviço deve ser, no mínimo, de qualidade.
A referência de qualidade em todos os sentidos que tenho para guias de trekking e escalada no Brasil há muito tempo são os Guias de Trilhas de Petrópolis e do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, do Waldyr Neto. O que eu procurava nas lojas de Huaraz era um livro com uma qualidade de conteúdo similar e realmente consegui. Não tenho dúvida que um montanhista com alguma experiência em alta montanha consiga fazer algumas escaladas na região com a ajuda apenas desse guia. Para comprar o guia:http://www.peaksandplaces.com/ (Loja do autor – Dica: Se você solicitar, o livro poderá seguir autografado).