quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Torres del Paine, por Rafael Guerra

Primeira visão do parque, ainda na estrada, rumo a portaria da Laguna Amarga.
Em 26 de dezembro de 2011, eu, Fábio, Letícia, Gilmar e Alessandra partimos para uma viagem de 14 dias pela Patagônia com o objetivo de fazermos o trekking do circuito (O+W) do famoso Parque Nacional Torres del Paine.
Para chegar até lá, pegamos um voo para Santiago e uma conexão para Punta Arenas, onde chegamos a noite. Ficamos pouco tempo em PA e na tarde do dia seguinte seguimos de ônibus para Puerto Natales, que é a cidade mais próxima ao parque.

A tradicional foto do grupo no início da caminhada.
O local da foto é a portaria da Laguna Amarga, local onde fomos deixados pelo ônibus.
 













Trilha para o camping Seron.
Ficamos apenas um dia em Natales, o suficiente para descansarmos um pouco da viagem e comprarmos mantimentos para o trekking no Supermercado. Partimos de nosso hostel após o almoço, no início da tarde de 28 de dezembro rumo à portaria Laguna Amarga, onde chegamos às 16h30, após duas horas de ônibus e fomos avisados por um guarda-parque que o circuito estava fechado devido a um incêndio e que só poderíamos seguir até o refúgio Grey. Resolvemos iniciar assim mesmo o trekking, acreditando que em 2 ou 3 dias a passagem já estaria liberada. O pior que poderia acontecer seria termos que voltar tudo e isso não seria nenhum esforço absurdo.
Começamos a caminhada por volta das 17h e chegamos no Camping Seron mais ou menos às 23h, junto com o pôr do Sol. O esforço desse dia nos deixou bem cansados e com a certeza de que não deveríamos ter começado a caminhar tão tarde.
Nosso café da manhã no camping.
No dia seguinte, apesar da experiência do dia anterior, acordamos tarde e fizemos questão de fazer tudo bem devagar, sem pressa. Tomamos um café da manhã reforçado e saímos às 13h30 rumo ao camping do Refúgio Dickson. Uma caminhada muito bonita, com as montanhas de um lado e o rio Paine do outro. Cruzamos um passo com vento muito forte e continuamos na trilha, que seguia acompanhando toda a extensão do Lago Paine. Após 2h30 de caminhada, encontramos um pequeno bosque e paramos ali por 50 minutos para o almoço. Depois de mais umas 3 horas de caminhada, paramos novamente para tomar café. Foi muito diferente e legal essa dinâmica de parar pouco e quando parar, em vez de lanchar barrinhas de cereais e outras coisas rápidas, fazer um almoço leve com sopa, macarrão etc.
Visual da trilha para o Refúgio Dickson.
O refúgio Dickson.
Chegamos no Refúgio Dickson umas 21h30 e ventava bastante.
Fomos informados pela guarda do parque que o incêndio havia se intensificado e que o camping Los Perros estava fechado mas que poderíamos fazer um bate-e-volta sem problemas. Como passamos a ter muito tempo disponível, já que não poderíamos fazer o circuito completo, resolvemos tirar o dia seguinte de folga e deixar o bate-e-volta em Los Perros para o dia 31. Nós passaríamos o reveillon no refúgio Dickson e voltaríamos para o acampamento anterior, Serón, no dia primeiro.
Decidimos montar as barracas bem próximas umas das outras para tentar aumentar a resistência contra o vento. A minha barraca foi montada por último com a ajuda do Fábio e da Letícia. Quando terminamos, deu tempo apenas de eu colocar a minha mochila dentro dela e uma rajada de vento mais forte simplesmente a achatou contra o chão, quebrando a estrutura de alumínio e rasgando o cobre-teto!
Acabei conseguindo acomodação no refúgio por $ 10.000. Havia também barracas para alugar por $ 7.000, mas achei que a diferença de preço não fazia isso valer a pena. Acabou sendo uma noite agradável. Fábio, Letícia, Gilmar e Alessandra foram para o refúgio e jantamos sanduíches de carne. Eu bebi umas 4 latinhas de Austral Lager... Gostei muito! Depois que a turma voltou para as barracas eu ainda fiquei bebendo com os outros montanhistas que estavam no refúgio até 1h da manhã.

Quando a gente olhava para as montanhas na direção das Torres, víamos as nuvens coloridas pelas chamas que consumiam a vegetação do parque. Um espetáculo muito triste.
Leticia e Gilmar no Refúgio Dickson enquanto aguardávamos os hambúrgueres.
No dia 30 acordei disposto a não fazer nada além de curtir a folga da caminhada. Afinal, já havíamos andado mais de 36km e as mochilas estavam bem pesadas! Quando saí do refúgio para tomar o café da manhã com os amigos que estavam acampados, fui abordado por um guarda que me disse que o parque estava sendo evacuado e que deveríamos partir também. Os refúgios Los Perros e Serón já estavam fechados e o Dickson seria fechado em breve também. Já podíamos ver a movimentação dos funcionários retirando o material do refúgio.
Nesse momento a minha maior preocupação era arrumar acomodação para dormir quando chegássemos no Serón, já que eu não tinha barraca e também já não poderia contar com a possibilidade de alugar uma barraca do refúgio! As barracas que meus amigos estavam levando eram para uma pessoa, com conforto. Enfiar 3 pessoas numa barraca dessas seria um problema mas parecia a única opção.
Comida também era um problema, já que nos preparamos para comprar parte dos alimentos nos refúgios por onde passaríamos. Conosco, levávamos apenas uma quantidade pequena para emergências.

Arrumamos tudo e saímos de Dickson às 11h. Naquela altura, com o corpo mais acostumado ao exercício, a caminhada parecia mais fácil para todos. Mesmo com uma chuva fina que insistia em cair. A não ser na parte da trilha próxima ao mirador do lago Paine. O vento, que já estava forte no dia anterior, nesse dia parecia estar com o dobro da força. A Alessandra estava caminhando bem a frente do grupo, depois seguíamos eu e Gilmar e bem mais atrás, o Fábio e a Letícia. O vento era tão forte que eu só conseguia seguir muito devagar, de costas para uma pirambeira de 150m que termina no lago e forçando os bastões de caminhada contra a parede de pedra, que se estendia por boa parte do lado direito da trilha. Em um certo momento resolvi arriscar uma caminhada mais rápida de frente para a trilha e o vento me fez subir uns 2m a tal rocha. Quase pirei tentando descer dali antes que o vento desse uma trégua e eu desabasse. Parecia um skatista em um halfpipe. Depois o Fábio me contou que passou pela mesma situação...
Continuei caminhando com muita dificuldade... O barulho do vento era muito alto e a força dele fazia a mochila zunir ao mesmo tempo que eu era praticamente açoitado pelas fivelas da mochila. Posso dizer que entrei na porrada! Em um dado momento passei pelo Gilmar caído no chão. Ele havia se jogado atrás de um arbusto grande para tentar não ser lançado montanha abaixo. Seguimos juntos, caminhamos um pouco mais e finalmente conseguimos sair daquele inferno. Esperamos uns 10 minutos pelo Fábio e pela Letícia. Preocupados, resolvemos tentar voltar para socorrê-los caso fosse necessário. Não conseguimos! Em um determinado ponto de uma curva parecia que havia uma parede de vento.
Ficamos aliviados quando pouco depois os dois apareceram e saíram do vento.
Final de dia no Camping Seron.
Foto de Fábio Fliess.
A Guarderia.
Foto de Gilmar Oliveira.
Chegamos ao camping Seron às 20h45 e era possível avistar a fumaça do incêndio ao longe.
Achei estranho haver gente dentro da Guarderia, já que ela deveria estar fechada. Quando entrei, encontrei uma família de 12 montanhistas chilenos com os quais eu havia feito amizade no dia anterior. Eles estavam fazendo o trekking sem barraca, já que o parque quando não oferece refúgio, dispõem de barracas para alugar. Com a guarderia fechada, eles ficaram "sem teto", na mesma situação que eu, e forçaram uma das portas em busca de abrigo. Sabendo da minha situação, eles pegaram uma das barracas do parque e me emprestaram para que eu passasse aquela noite.
No dia seguinte devolvi a barraca arrumada e limpa. Os chilenos haviam dado uma boa faxina na guarderia e arrumado tudo.
Partimos todos juntos e umas 13h já estávamos na Laguna Amarga esperando pelo ônibus que nos levaria à Puerto Natales.

Apesar de não termos conseguido fazer o circuito completo mais o "W", como havíamos planejado, ficamos bem e posso dizer que valeu a pena.

A tristeza maior ficou por conta de ver tamanho patrimônio sendo queimado pela irresponsabilidade de um idiota que resolveu queimar o papel higiênico usado em vez de enterrá-lo, por exemplo.

Outras fotos que gostamos:
Trilha para o Dikison.
Foto de Fábio Fliess.
Gilmar, Alessandra e eu.
Foto de Fábio Fliess.
Alessandra rumo ao refúgio Dickson.

Final do dia no camping Seron.


6 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo post e dicas. Vou conhecer a Patagônia em maio. Acho que farei algumas trilhas tbm. Alguém pode me indicar um bom seguro viagem, p/ esse tipo de turismo de aventura? Abç, Vicente.

Anônimo disse...

Adoro trilhas e sempre que tenho tempo, acompanho o blog. Mas Patagônia eu nunca fui. Vicente, vc perguntou sobre seguro, esta empresa tem um plano p/ sport e turismo de aventura: www.touristcard.com.br Se eu ñ me engano, é esse o nome: Travel Sport abraço Samuel

Rafael Guerra disse...

Oi Vicente!
tudo bem?
fiquei feliz pelo seu comentário. Que bom que o blog tenha sido útil a você. Por quais cidades você pretende passar?

Bem, sobre o seguro viagem, não lembro de ter feito para essa ida à Patagônia.
Porém normalmente eu uso o Vital Card (http://www.vitalcard.com.br/). Sinceramente, não sei se existe um seguro viagem 100% confiável, mas esse já me tirou de apuros no interior do Peru, quando precisei de atendimento médico e fui bem atendido.

Se avise caso eu possa ajudar com algo mais.

Abraço,
Rafael

Rafael Guerra disse...

Oi Samuel,

obrigado por acompanhar o blog.
Garanto que a Patagônia é inesquecível.
Vou deixar anotada essa dica sobre o Travel Sport para uma consulta futura. Você chegou a usá-lo ou conhece alguém que o tenha experimentado?

abraço!

Marcia Nichelatti disse...

Que viagem incrível. Adorei! Abraço.

Rafael Guerra disse...

oi Marcia!
que bom que você gostou.
Obrigado por acompanhar o blog.
Abraços.